Sobre mim, São Paulo e a greve de ônibus.

“Não sei que caos é esse a que se referem os nossos articulistas políticos, e que, segundo eles, já se aproxima. Engano: há muito estamos nele.”

– Lucio Cardoso

Quando eu era mais nova, uma das coisas que mais me passava pela cabeça, e que desejava meu coração, não era ter sucesso, contatos, dinheiro, ou me casar. Eu tinha esse ideal de vida, esse desejo forte e utópico de fazer bem aos outros, de ajudar, de acrescentar ao mundo.

Para mim, abrir mão das coisas era a principal forma de fazer o bem, servir. Tudo tinha que ser certo, justo, arrumado. Ilusão.

Hoje pela manhã, como todos devem saber, uma greve de ônibus foi feita aqui em São Paulo.

Desde que voltei a morar em São Paulo, há alguns anos atrás, utilizo o transporte público para ir ao trabalho. O crescimento de usuários é enorme, e a qualidade e quantidade de transporte não o acompanham.

Sim, o caos no metrô gerado pela greve hoje, é um imenso exemplo disso. Mas isso é um evento, um evento de algo que está acontecendo há algum tempo.

Mas o que exatamente está acontecendo? Bom, o que acontece por exemplo, é que após algum tempo imersa na multidão de pessoas, ponta pés e empurrões, uma ansiedade enorme e um sentimento de pânico toma conta, por muitas vezes gerando agressividade. Como uma forma de protecão ou sobrevivência, não sei ao certo.

Muitas pessoas resumem a causa à falta de educacão do brasileiro. O brasileiro pobre, ignorante e ridículo, como dizem nos comentários desse video:

Não acredito que somos vítimas, miseráveis coitados manipulados por uma minoria pensante. Somos sim vulneráveis pela pobreza em que vivemos, pela fome, pela falta de conhecimento, falta de oportunidade, falta de sensibilidade. Mas também somos duros, indiferentes, inteligentes, melhores que os outros. Somos?

Esse é um video feito hoje na estação Pinheiros, estação inclusive que eu passaria se ainda estivesse no meu antigo trabalho.

Dá uma revolta enorme contra o governo, certo?

Infelizes, como podem construir uma estação enorme e mal feita dessa, sem sentido algum, a não ser o de ter algo para mascarar seu desvio gigante de dinheiro?

Pensamos: Motoristas de ônibus infelizes, para que fazer greve, preguiçosos? Todos tentando trabalhar e vocês inventando jeito de ficar de folga? E: Pessoas pobres e nojentas, sem cultura. Porque não ficam em casa ao invés de brigar, tumultuar e gerar essa baderna?

Mas o que eu tenho feito que tem gerado tamanha desordem, falta de humanidade, maldade, insensibilidade para com a necessidade dos outros e a minha própria? O que está nas minhas mãos fazer para melhorar e o que de fato é de minha responsabilidade?

A menina que mudaria o mundo de certa forma morreu. Ela mesma foi se matando no caminho. Como pode tirar algo para doar, de um recipiente que só se esvazia? Ele está vazio, não tem o que doar.

Então ela se enfurece, se ira, briga, luta, rouba, mata, para que então, quem sabe tenha algo no recipiente para doar.

Tenho me perguntado hoje: o que eu posso fazer para mudar o meu país? E a única resposta que tenho obtido é: mudar a mim mesma. O governo reflete o povo, o povo reflete o governo e assim por diante. Sinto dor, porque olho esse povo e esse povo sou eu. Olho esse governo, e esse governo sou eu.

Assim como o caos tumultuado de uma tempestade traz uma chuva nutritiva que permite à vida florir, assim também nas coisas humanas tempos de progresso são precedidos por tempos de desordem. O sucesso vem para aqueles que conseguem sobreviver à crise.” 

– I Ching

Tomara…